1991 – INICIO

Em uma noite de Junho de 1991, em uma estrada, indo para Rio Negrinho, acompanhado do Álvaro, na época outro engenheiro da empresa, e de repente, um grande impacto e a inconsciência. Quando me recobro, estou em um leito de hospital, recém operado, com platina no braço esquerdo, bacia quebrada e parcialmente imobilizado. Foi um acidente, um carro tentou atravessar a estrada em um local sem visibilidade. Quase tão de repente quanto o acidente, foi a mudança de um cotidiano agitado para um estado de imobilização no hospital. Graças a Deus, O Álvaro quase nada sofreu além do susto e alguns hematomas. Com o passar dos dias comecei a tomar pé da situação. Meu carro quase novo, foi para o ferro-velho, e ele não tinha seguro. O proprietário do outro carro não tinha como pagar meu prejuízo, aliás, no último ano ele havAcidenteia batido 5 vezes. Quando fui entrar em acordo com a empresa na qual eu trabalhava, ouvi que a obra estava terminando e que pagariam mais 3 ou 4 salários e eu sairia da empresa, essa seria a proposta. Ou seja, sem meu carro “novo” (que levei varios meses para poder comprá-lo), sem meu emprego e em um quarto de hospital. A situação não era das melhores, mas serviu para que eu meditasse bastante sobre os valores da vida e principalmente sobre os meus valores.

Toda adversidade é acompanhada por uma ou mais oportunidade! No meu caso não foi diferente, porém é necessário interpretar cuidadosamente a situação para poder vislumbrar as oportunidades. Muitas vezes na primeira vista não existe nada de bom ou oportunidades em um acontecimento ruim, mas creiam, existe! Nem que essas oportunidades só sejam aparentes em um futuro distante, ou no mínimo para aperfeiçoar o aprendiz. Bem, saí do hospital, fui para casa, me recuperei mais um pouco, acertei minha situação na empresa onde trabalhava, recebi minha rescisão. Nem eu e nem a empresa sabíamos, mas muito mais valioso que o valor da rescisão, foi levar comigo um fantástico amigo, aquele engenheiro do acidente, o amigo Álvaro. Amigo que me acompanhará até o fim desta jornada !!!Bruce Roberts 43 pés

Em outubro de 1991 tomei uma decisão! Vou fazer meu veleiro !!!! Usarei os recursos provenientes da rescisão da empresa, para comprar o material necessário e iniciar a construção do casco! Mas que projeto farei? Bem… gostei muito daquele projeto que meu amigo me apresentou, aquele maior. Mas o Gunther havia me advertido sobre a magnitude daquele projeto, mas talvez não seja tão grande assim ?! É isso !!! Vou Fazer um veleiro de 43 pés !!!

Serrando na Sala Analiso o projeto, compro madeira e começo a desenhar as secções transversais do veleiro em um compensado colocado no chão da sala de casa. Utilizei a sala porque era um local plano e grande o suficiente para essa atividade. Isso só foi possível também porque meus pais estavam morando no litoral. Lembram? Fazendo aquela lancha.

Comuniquei meu amigo Gunther sobre a minha decisão. Não sei exatamente o que passou Alvaro e as cavernasna sua mente, talvez pensou que minha conduta poderia ser fruto da pancada na cabeça, ou efeito dos remédios, o fato que não faltou argumentos para que eu mudasse de idéia. E é claro que ele tinha razão, ele só queria meu bem, talvez quisesse me poupar de uma desilusão, de um fracasso. Fazer um veleiro deste porte com os recursos financeiros que dispunha é grosseiramente como querer fazer uma casa de 600m2 com R$20.000,00 ou como atravessar um oceano com um barco a remo. Mas eu não estava querendo fazer uma casa e nem Gunther e as cavernasuma travessia e sim um veleiro, ou melhor, minha casa flutuante. Minha casa flutuante que até já tinha nome: CHRISTALINO !!! . A partir deste momento é concluir ou desistir !!! Quando meu amigo Gunther percebeu que eu não ia desistir, tornou-se um maravilhoso aliado, acompanhando os primeiros passos desta obra. OBRIGADO GÜNTHER, eu não conseguiria dar os primeiros passos sem sua orientação !!!

A partir deste ponto começa o DIÁRIO DE BORDO do CHRISTALINO .Comecei a cortar as primeiras tábuas para montar as cavernas na sala de casa. Aproveitei essa atividade para substituir a fisioterapia que os médicos haviam recomendado para o braço esquerdo. Pouco a pouco as peças começam a ficar montadas e encostadas na parede da sala. O início é precário. Poucas ferramentas, pouca experiência, mas muita vontade. O amigo Álvaro é claro que se fez presente nesta etapa difícil.

Terminado as cavernas, preciso colocá-las sobre um gabarito em um local grande o suficiente para acomodar o “esqueleto” do Christalino. Surge uma idéia, levar tudo para Guaratuba, isso mesmo, lá onde meu pai está construindo a lancha. A essa altura meu irmão já estava engajado na construção da lancha bem mais que eu, mas como ele morava em Santa Catarina, sua ajuda era de fins de semanas, férias, etc. e o casco da lancha estava progredindo embaixo de um galpão em concreto pré-moldado que meu irmão havia comprado. Mas ao lado da lancha havia um espaço, tudo indicava que o espaço disponível seria adequado, mas será mesmo ? Mede-se e mede-se, tudo bem, sobrou 60cm de cada lado. Início do gabarito. Nesta época, o projeto ganha mais um reforço, um colega do curso de engenharia, um companheiro de mergulho, o amigo Ricardo.