PRIMEIRO CONTATO

Essa é a primeira vez que eu escrevo para o site depois da inauguração do Christalino. Já fazem dois anos que o veleiro está na água, mais precisamente, no Iate Clube de Paranaguá e eu morando nele a maior parte do tempo.  Tenho me sentido um pouco  culpado por esse período de “silêncio”, mas tudo é justificável.

O primeiro semestre após a inauguração foi para minha  recuperação  física, pois os meses que antecederam a inauguração foram extremamente extenuantes e  repletos de emoções. Ainda nesse período, comecei a efetuar intervenções em alguns sistemas da embarcação que não ficaram absolutamente satisfatórios. É como se diz comumente aqui no Brasil, após o nascer de um bichinho, o período que a mãe toma conhecimento dos filhotes, de  “lamber a cria “. Já em caso da entrega de um equipamentos, máquina ou fábricas, utiliza-se o termo comissionamento, um período para ajustes, verificação e adequações.  Nos primeiros meses, o cuidado deve ser maior, afinal , o veleiro não foi totalmente pronto para água.

O ano de 2009 foi dedicado à aquisição e instalação dos eletrônicos a bordo, GPS, chartplotter, radar, autopilot e mais outros acessórios. Equipamentos que tornaram o Christalino mais “esperto”, muito provavelmente mais orientado e esperto do que o seu comandante.

Em 2010 o Chistalino ficou quase metade do ano em viagem. Foi um período de testes fora de casa. Todo garoto de seis anos sabe que tirar o brinquedo de casa e ir brincar no quintal já é uma  realização. Pois bem, o quintal do cristalino foi a região de Angra dos Reis, lá eu descobri mais modificações a fazer.

Quando estudante, eu aprendi que na engenharia não existe o ”ganha-ganha”, ou seja, quando optamos por uma  determinada solução, ela trará benefícios em determinados aspectos, mas também alguns aspectos negativos ou indesejável. Mais tarde descobri que isso não ocorre só na engenharia, a vida é assim também, não existe uma  só escolha na vida que não traga além dos benefícios inerentes a tal escolha,  alguma restrição ou caráter negativo. A opção de inaugurar o veleiro antes de ele estar totalmente pronto, foi mais uma dessas decisões de vida. Como aspectos positivos, trouxe a satisfação de ver o sonho um pouco mais próximo da realização e a possibilidade de  desfrutar o barco nos fins de semanas com os amigos a bordo. O aspecto negativo foi que tudo fica mais difícil de terminar. Com o veleiro na água, qualquer serviço a bordo torna-se mais complicado e demorado.

Imaginem trocar um pneu de carro em uma revenda de pneus, todas as ferramentas estão disponíveis para efetuar a troca, as condições são as melhores possíveis. Agora, vá trocar o mesmo pneu  no acostamento de uma rodovia em um dia de chuva, com o porta mala cheio de bagagem e apenas  com as ferramentas disponíveis do automóvel. A tarefa torna-se bem mais difícil, sempre surgem fatos “inesperados“, a bagagem cai do porta malas, o macaco afunda no chão, o parafuso da roda não quer soltar, e assim por diante, transformando muitas vezes uma simples troca de pneu em uma verdadeira  aventura.

Mas a grande vantagem dessa minha decisão, foi o fato de ter recebido uma imensurável injeção de ânimo. Em todo projeto de vida, em toda viagem difícil, é necessário em tempos em tempos termos alguns momentos de satisfação, momentos para alimentar a alma, alguns momentos de “parada”  para sentirmos nossos avanços, um  Oásis antes de continuar o caminho. É importante nesse sentido, termos um autoconhecimento de nossos limites de resistência para podermos planejar as próximas “paradas”. Com o tempo, após inúmeras “paradas”, vamos percebendo como dimensionamos mal essas paradas, algumas muito próximas e portanto dispensáveis, outras muito longas, causando períodos de trabalhos duros, muita dedicação, sem nenhum retorno aparente.São nessas fases que aprendemos um pouco mais sobre nós mesmos, aprendemos que somos mais capazes que imaginávamos, ampliamos nossos limites. Não posso deixar de lembrar nesse momento de uma frase que um querido e sábio amigo, o Dr. Alberto (veleiro Sea Vogel ): “ O ser humano é a interface entre o infinito externo e  seu infinito interno”.

É impressionante o  desconhecimento sobre nós mesmo, muitas vezes nos tornamos  meros espectadores de atitudes que tomamos em situações fora do cotidiano. Com o autoconhecimento nós adquirimos a autoconfiança,  paulatinamente vamos sublimando nossas  preocupações sobre as possibilidades de não conseguirmos superar determinada situação. Acredito que esse processo possa verdadeiramente ser chamada de crescer.

A partir de agora que o Christalino está quase pronto (dizem que um veleiro nunca fica pronto…), pretendo postar mais freqüentemente matérias para o site. Começarei com o relato sobre a inauguração, espero que vocês gostem dessa aventura.

Dia: 21/02/2011 - arquivado em: Notícias, ,