RELATOS DA INAUGURAÇÃO

A INAUGURAÇÃO

 

Passado tanto tempo, creio que agora eu possa falar deste período da inauguração. Tudo que me lembro pode ser classificado  por pressão, dedicação, incertezas e superação. Eu nunca tive dúvidas que esse período seria emocionante,  mas acho que poderia ter sido um pouco menos emocionante. Sei que isso tem um lado positivo, sei que são momentos emocionantes que ficam registrados na nossa memória pra sempre,  mas hoje em dia me pergunto se as coisas precisavam ser tão no limite como foram.

Deixe-me contar um pouco sobre a data da inauguração, a qual foi definida por um conjunto de fatores. Em maio de 2008, o barco já estava com a maior parte da hidráulica, elétrica, e interior pronto. O mastro e estaiamento já estava a há muito tempo comprados, Faltava adquirir as velas, colocar as vigias, fixar o policarbonato das vigias fixas da sala, fazer a pintura do convés com a aplicação de tinta antiderrapante, fazer a montagem elétrica  do motor, terminar de confeccionar o sistema de leme e instalá-lo. Faltava também terminar o púlpito de proa e instalá-lo também.

A vontade de inaugurar em 22 de novembro (data do meu aniversário) era muito grande, apesar de alguns amigos acharem que na virada do ano seria melhor, ano novo, vida nova. Bem querer é uma coisa, conseguir é outra bem diferente, além de muito trabalho, faltava os recursos financeiros para a conclusão. Não havia recursos para comprar as velas e os  enroladores de genoa. Neste mês, a RPC (canal de televisão local) resolveu fazer uma matéria sobre o Christalino, e na entrevista a repórter perguntou quando o veleiro iria para a água. Bem, quem respondeu foi a minha vontade, não minha razão, e a data de 22 de novembro foi proferido. Depois de divulgar a data não tinha muito o que fazer senão trabalhar e torcer que as coisas acontecessem. Havia uma esperança para obter os recursos, eu tinha uns terrenos à venda, mas  não havia nada de concreto sobre a venda dos mesmos. Nos meses seguintes me  concentrei no que dependia de mim, que era o trabalho ainda mais intensivo, não sabia se o Christalino iria pra água com as velas ou com os enroladores, mas teimava em pensar que ele iria de alguma forma para água.Vendi um dos carros que possuía para saldar despesas gerais. Acreditava, tinha certeza que as coisas iriam se ajeitar, continuava fazendo a minha parte, trabalhando.

Setembro, já tinha orçamentos das velas, mas  nada de solução para a compra. Fiz também uma pesquisa dos preços dos enroladores novos, descobri também uma opção alternativa. Havia um veleiro abandonado na sub-sede do iate clube de Paranaguá, ele possuía um enrolador de boa marca e no tamanho compatível para o  Christalino. Encontrei com o dono da embarcação e ele me fez uma proposta pelo equipamento.Não tinha ainda como comprar mas já sabia as opções disponíveis.

Os trabalhos também não se desenvolviam conforme eu imaginava, começava a cogitar em ter que colocar o Christalino na água com o convés sem pintura. Isso me desagradava profundamente, pois sabia que sem uma cobertura seria muito mais difícil pintá-lo. Imagine, veleiro sem vela, convés sem pintura, uma inauguração um pouco comprometida. De repente,um amigo (Emerson) me perguntou se eu não precisava de um ajudante, prontamente falei que sim, mas um tanto desconfiado devido as péssimas experiências que tive anteriormente das quais prefiro não comentar. Ele me disse que tinha um sobrinho (Lincom) que queria trabalhar, disse-lhe que fosse conversar comigo. Acertei o valor, e ele começou me ajudar. Tenho certeza que ele não sabia onde estava se metendo, foram quase três meses de muita lixa e tinta até altas horas, todo dia. Mas o ajudante aderiu a causa e, como um bom tripulante em dias de mar difícil, suportou com coragem a besteira que havia feito, embarcando no Christalino. Sou muito grato pelo seus serviços, sem ele, eu não conseguiria terminar o convés a tempo.

Outubro, eu trabalhava nas tarefas que só eu podia fazê-las e estava acompanhando as tarefas que eu passava para meu ajudante. Paralelamente, estava em negociação com um possível comprador dos meus terrenos. A negociação estava a cargo do Machado (um outro amigo corretor e velejador) que  trabalhou algumas semanas mas logrou êxito. O pagamento seria feito em parcelas, mas o importante é que não havia mais restrição financeira, agora era só ir para o “shopping”!!! Comecei encomendando as velas, comprei aquele  enrolador usado que já havia tratado e comprei também um outro enrolador novo. As condições já estavam bem mais favoráveis mas havia ainda o problema de terminar os serviços a tempo. Pretendia colocar o mastro 30 dias antes da inauguração,  mas como  o veleiro estava dentro de um galpão, tinha que priorizar os serviços de pintura e a colocação das gaiútas (janelas) para ter proteção contra as intempéries quando fora. Interrompi os serviços de montagem para ajudar os trabalhos  com o convés. Nessa época eu tinha dois amigos (Álvaro e Jorge) encarregados oficialmente em alimentar com informações o site, promover o concurso para a logo do nome, e ir preparando a festa de inauguração. Não havia mais como adiar o evento, só não sabia ainda em que estado ele iria para a água. Ao final de outubro o convés já estava pintado, só faltava: colocar todas as vigias para fechar o barco, terminar a porta de entrada, colocar alguns suportes para fixar os cabos de aço do mastro, colocar o púlpito de proa e guincho de ancora, instalar o sistema de leme, Colocar as catracas e fazer o motor funcionar. Pouco se dormia nessa fase, apenas o suficiente para poder continuar trabalhando. Precisava também achar um tempo para ir retirar o enrolador que havia comprado do veleiro abandonado. Bem essa foi outra história que deixarei talvez para contar em outra oportunidade onde eu e o marinheiro Moisés fomos em uma cruzada enfrentando um ninho de vespa instalado no tope do mastro do barco abandonado.

Novembro, logo nos primeiros dias, concluímos o fechamento do convés com as vigias e tiramos o veleiro do galpão, tínhamos pouco tempo para instalar o mastro e concluir as montagens. Faltavam agora menos de 10  dias, nessa época tive que delegar mais tarefas. Meu ajudante continuava com serviços gerais, o Moisés (marinheiro e amigo) estava fazendo a montagem do mastro, meus amigos (Álvaro, Jorge e agora Ricardo) estavam providenciando a plotagem  e a colocação do nome no costado do veleiro, O Sr Jorge, (fabricante das velas) fazendo as últimas medidas para terminar as velas, o Hítalo (amigo e prestador de serviços em manutenção náutica em geral) estava com sua equipe polindo o costado e eu no meio de tudo isso, me dividindo entre  compras de última hora de cabos de aço, ferragens, etc, montagens que só eu podia fazer e, “orquestrando” todo esse pessoal, tinha períodos que eu escutava meu nome umas duas a três vezes por minuto. Fins de Semana tínhamos reforços, meu amigo Sérgio (um outro maluco no bom sentido, que está fazendo um 40 pés em Curitiba) vinha de Curitiba para ajudar nos trabalhos.

19 de novembro, quarta-feira, três dias para a inauguração, o veleiro já estava próximo à Rampa de encalhe  e com os seguintes “progressos”:

 

– Mastro e enrolador, (faltava instalar o estai de popa que ainda não tinha chegado)

– Púlpito de proa  e guincho ( faltava a instalação elétrica do guincho)

 – Instalação elétrica do motor completada (só falta ligar os tubos de alimentação de diesel e os tubos de escape),

 – Pedestal do timão montado (faltava passar os cabos de comando do leme )

 

  

      Em resumo, o Christalino estava lindo! Costado brilhando, nome colocado, convés pintado, gaiútas laterais colocadas, mastro no lugar, tudo estava ótimo, se não fosse pelo seguintes “detalhes”:

 

– No trajeto entre o galpão e o pátio, quebrou o tubo que comandava as rodas dianteiras da carreta. Precisava ser concertada para poder descer a rampa até a água,

 -Não tinha chegado o estai de popa (cabo de aço de popa que suporta o mastro). Se não chegasse a tempo, não teria como usar as velas),

– faltava colocar as catracas (equipamento para manusear os cabos)

– motor não tinha sido testado (apesar de ele pegar sem querer em duas oportunidades anteriores),

– Faltava pintar o casco com a tinta anti-incrustante,

– Faltava fazer os suportes do cabo de aço que iria comandar o leme. Ou seja, o veleiro estava sem sistema de leme a três  dias da inauguração.

 

        20 de novembro, quinta-feira. Eu , Ricardo e Álvaro trabalhamos no sistema de leme, em tempo recorde, conseguimos terminar.  O Christalino estava agora com o leme funcionando. A organização da festa estava inteiramente por conta dos meus amigos e da minha irmã.

 

21 de novembro, sexta-feira. Os amigos começaram com  a pintura do fundo com tinta anti- incrustante. Eu ligo os tubos de diesel do motor, o marinheiro Moisés termina de colocar os tubos de escape e dessa forma damos por terminado a ligação do motor (só falta testá-lo). Ainda na noite de sexta, desmontamos os forros da cozinha e do quarto central para instalar  as catracas.e alguns “suportes estratégicos”.

 

22 de novembro, sábado, dia do meu aniversário e da inauguração do Christalino. O dia começou bem cedo e com muito vento. Dividimos entre os amigos as tarefas que eram fundamentais. O Lincon desmontou a roda da carreta, e o Pieter levou a peça para soldar em uma oficina escondida não sei aonde, outros continuavam a pintura do fundo. Eu e mais uns amigos recolocávamos os forros do teto tirados na noite anterior.

Enquanto continuava a chegar convidados, o vento que não parava de aumentar. A equipe contratada para montar uma cobertura de lona para a festa lutava contra o ventos de 25 a 30 nós. Diga-se de passagem, em cinco anos que eu praticamente morei na marina, eu nunca tinha visto algo parecido. Pergunto, tinha que ser bem no dia da inauguração?

Bem, a idéia era colocar o Christalino na água de tarde e logo após começar a festa com Barreado (prato regional) como jantar, embalado pela Banda BLINDAGEM de Curitiba. No dia seguinte (domingo) haveria um almoço em uma ilha próxima, onde o Christalino faria sua primeira velejada.

Em umas de minha saídas do interior do Christalino, vi a lona que abrigaria a festa, toda no chão novamente, e um monte de gente cuidando para ela não voar. Percebi que teria que mudar o roteiro da festa, não tendo sequer a certeza se haveria uma festa. Uma coisa era certa, não teria condições de colocar o veleiro na água naquele dia, teria que adiar para o dia seguinte, mas a festa tinha que sair.

As pessoas responsáveis pelo jantar estavam com medo e queriam ir embora ver suas casas, nada me garantia que a Banda que iria tocar, realmente compareceria. E tocar aonde, se a grande tenda já estava no chão?

Mais uma vez a vontade e superação de todos foi fundamental. O pessoal do jantar se refugiou em um  pequeno galpão se instalando no mesmo, as pessoas  levaram as mesas e tudo mais para lá, o pessoal da tenda usou o que eles dispunham para proteger o galpão lateralmente do vento. Na hora prevista, em meio à chuva,  chega  uma van preta !!! Dela sai o Paulo (baixista do BLINDAGEM), o  Ivo (vocalista do BLINDAGEM) e toda a turma !!! Chegaram perguntando onde instalar os equipamentos, improvisaram em um pequeno palco. Tudo improvisado e o resultado maravilhoso, todos que ficaram, que acreditaram se divertiram muito. A presença do BLINDAGEM  foi para mim uma realização e tanto. Há anos que eu imaginava a presença deles na inauguração do Christalino.

 

Domingo, 23 de novembro, dia da inauguração derradeira. Lá pelas 09h os convidados começarão a chegar, chegaram também a equipe de televisão da RPC que faria a cobertura da inauguração.A carreta já estava arrumada e a pintura concluída, o interior já estava relativamente arrumado novamente. Entretanto, ainda tínhamos algumas atividades no convés. Alguns amigos montavam as velas e os cabos e o Hítalo terminava a colocação dos cabos de aço de popa (estai) que havia chegado na sexta a tarde. Foi quando resolvi ligar o motor para testar. Foi só acionar a partida que o motor pegou imediatamente, desliguei em seguida (pois não se deve deixar o motor funcionar sem água de refrigeração). A repórter viu eu ligar e perguntou se eu podia fazer aquilo de novo para eles filmarem, eu disse que  podia sim. Pois da segunda vez sob os “olhos” da câmera o motor não quis mais funcionar, nesse momento tínhamos um novo e inesperado problema. Fui para casa de máquinas tentar descobrir o que poderia ter acontecido. Fiz de tudo e nenhum resultado, simplesmente o motor não pegava.Os amigos que iriam fazer o churrasco precisavam ir para ilha combinada para iniciar os preparativos.

Todos os amigos que tinham algum conhecimento de mecânica diesel se debruçaram sobre o motor e nada. Após esse período, ficou claro que o motor não funcionaria mesmo. A equipe da RPC desanimou com a noticia, muito provavelmente por associar o Chistalino a um automóvel ou barco a motor, onde sua utilização está intimamente ligado ao uso do motor. Mas velejadores sabem que o motor em um veleiro é um equipamento importante mas não indispensável.

 A equipe responsável pelo churrasco já havia saído de lancha para a comunidade de Amparo e já estavam preparando o almoço para receber os convidados que chegariam de Paranaguá acompanhando o Christalino em sua primeira singradura. Bem, pelo menos esse eram os planos, mas quando se trata em chegar a algum lugar de veleiro, planos são planos, depende muito da natureza, e no caso em particular, da vontade, da criatividade para contornar os problemas.

  Decidi que o Christalino iria para água sem o motor funcionando mesmo. Desta forma, descemos a carreta até bem próximo da água, improvisamos um cabo amarrado a um champanhe para que minha mãe fizesse o batismo. Após algumas frases doces que só as mães conseguem criar, começou a série de tentativas de quebrar o champanhe no casco. Foram mais de seis tentativas, quando recolhi o cabo que suspendia a garrafa e, representando minha mãe, quebrei a mesma do púlpito de proa do Christalino. Agora podemos descer para a água, e lentamente o veleiro foi descendo aos olhos, gritos e lágrimas dos convidados. E o Christalino começou a flutuar ! Que sensação maravilhosa, ele flutua ! 

Ele flutua. Mas as tarefas não acabaram, é preciso ir até o local onde estava sendo preparado o churrasco. O motor não estava funcionando, mas dispunhamos de vento,de um barco novo, de velas e quando olhei no convés, haviam vários amigos velejadores (nem sei como eles estavam lá, mas era o que bastava). Pedimos um reboque para sair da marina que fica as margem do rio Itibere até a Ponta da Cruz. Ao ganharmos a baía desligamos do nosso reboque e começamos a navegar por conta própria. Como era a primeira velejada e o vento não estava fraco, a idéia era levantar pouca área vélica para não forçar a estrutura. Nunca vou esquecer das palavras do meu amigo Haraldo (um amigo e experiente velejador) : “Vagner , vamos levantar só um lencinho.” E assim foi, desenrolamos apenas um pedaço da genoa e levantamos a mestra no segundo riso. Fizemos um bordo sentido Antonina esperando a escuna que estava trazendo os convidados para o churrasco. Após quinze minutos de velejada, já estávamos com a genoa totalmente aberta e a mestra toda em cima, já não era mais só um “lencinho”, crianças com brinquedo novo só podia dar nisso mesmo. O Christalino deslizava sobre as águas com serenidade, sem inclinar muito, sem chacoalhar, sem movimentos bruscos, leme macio, um lento e majestoso velejar. Voltamos a Ponta da Cruz para encontrar com os convidados, a escuna ao sair do rio, tomou o rumo para a comunidade de Amparo que fica de frente ao porto do outro lado da baía. Contornamos a escuna pela popa e fomos acompanhando ela  com vento de alheta. Em poucos minutos fomos nos aproximando da escuna e conseguimos passar dela (escuna esta que, segundo seu proprietário, naquela condição ela fazia 8,5 a 9 nós). Um amigo que estava na escuna filmou quando estamos passando por eles, para mim aqueles poucos segundos de filme ainda provoca uma sensação maravilhosa!

 

 

Chegamos em Amparo, ancoramos o Christalino e fomos almoçar, já era 16:30h mas apesar da hora avançada  para um almoço, eu não estava lá com muita fome. Ao desembarcarmos, claro os amigos nos receberam com muita alegria, todos estavam alegres e felizes  com essa realização. Não era uma coisa particular minha, todos que acompanharam desde o inicio ou superficialmente apenas nos últimos dias ou mesmo nas últimas horas estavam realizados também. Lembrei nessa hora que “sonhos não se vendem, sonhos se compartilham”.

Após o almoço, voltamos velejando novamente até a Ponta da Cruz, onde nos servimos de um reboque até o Iate Clube de Paranaguá. Foi uma noite que desmaiei com a completa sensação  de missão cumprida.

 Muito obrigado a todos que participaram dessa aventura com roteiro e direção Divina.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dia: 22/02/2011 - arquivado em: Notícias, , ,