Amigos de Presente

     Durante o longo caminho que foi a construção do Christalino, eu tive a satisfação de fazer bons amigos. Geralmente apareciam de forma inesperada enquanto eu trabalhava no barco. É interessante como nos são apresentado os amigos, muita vezes de forma curiosa. Eu procuro prestar muita atenção às circunstancias de tais encontros, pois, acredito que nada é por acaso. Descrevo a seguir  alguns desses encontros inesperados.
 
“O que você está fazendo aí?”

O primeiro que me lembro foi ainda em Guaratuba. Estava tranquilamente trabalhando, quando chega uma turma liderada por um sujeito com um cavanhaque branco que, na correria, sobe na estrutura do barco, me olha de forma inquisitória e pergunta: “O que você faz aqui?” Engraçado, naquele momento me veio a mesma pergunta na mente, mas diante da situação respondi o óbvio: – Estou fazendo um veleiro!

Após alguns minutos de conversa passei a conhecer o Sr. Oscar Franzzen e seus filhos Zilmar e Zigot. Eles estavam por começar a construir seu veleiro. Desde então, nunca mais perdemos contato, até porque a partir deste veleiro, eles montaram um estaleiro, e coincidentemente me fiz presente nas últimas três inaugurações desta família. O estaleiro Franzzen é especializado na construção de veleiros de madeira e epóxi, e reconhecido pelo excelente acabamento.

“Abrindo a cabeça”

Uma ocasião quando o barco já se encontrava em Curitiba, eu estava trabalhando no quarto central, embaixo do beliche, quando este caiu sobre minha cabeça. Doeu bastante, mas passados um ou dois minutos, voltei ao trabalho. Uma hora depois, fui tomar um banho, pois precisava sair para comprar material. Nessa hora a cabeça voltou a arder. Pedi que minha mãe desse uma olhada e então fiquei sabendo que estava com um belo corte no couro cabeludo.

Bem, não tinha jeito, era preciso costurar aquilo, então fui até um hospital onde trabalhava uma amiga ortopedista. Entretanto, não era o dia de seu plantão, desta forma, tive que consultar outro médico. Para me atender, apareceu um cara alto e “magrão”, pedindo-me que o seguisse até o consultório. O atendimento transcorria normalmente até o sujeito saber que eu me machuquei fazendo um barco, nesse momento começou uma série de perguntas e nada de costurar minha cabeça. Só depois da intervenção da enfermeira que aguardava para ajudar, é que o conserto deu inicio, mesmo assim, enquanto a costura era feita a conversa sobre barcos corria solta.

Passados alguns dias, recebi a visita do tal médico no meu barco, foi a primeira de várias que sucederam a aquela. Algumas vezes, ele participou ajudando efetivamente na construção, como foi o caso da laminação da bolina do Christalino na garagem de casa. Aliás, essa etapa foi bastante interessante, pois, pude reunir, eu (engenheiro), um amigo da informática (analista de sistemas) e meu amigo médico. Foi divertido ver como a formação de uma pessoa, influencia na sua forma de agir. Mas essa é outra história, o importante desde episódio é ter em mente que, quando não é possível achar mão de obra qualificada, o remédio é se virar com que tem.

Tempos depois, ele, a esposa e mais um amigo, alugaram um veleiro em Angra e convidaram-me para ir junto. Foi uma semana em torno da Ilha Grande, e eu já sabia o que iria acontecer. Quando voltaram, compraram seu primeiro veleiro e agora já estão no segundo.

Essa é a história de como conheci meu amigo Afonso, um cara prático e determinado, uma ótima companhia para se ter a bordo!

amigos laminando quilhaAfonso e Vagner em Angra dos Reis, RJ

O Francês das doze tribos

Outra vez, trabalhando sobre o convés em Curitiba, me aparece um homem de barba longa, roupas esquisitas e com umas crianças pequenas. Com um forte sotaque começa a conversar comigo e aos poucos, tomei conhecimento que ele era francês e já tinha morado em um barco. Trabalhou em plataformas de petróleo pelo mundo e me relatou que em um determinado momento de sua vida, o dinheiro já não o satisfazia, já não o preenchida mais. Foi quando ele largou o trabalho e foi morar no veleiro.

Saiu ele e sua esposa pelo mundo e após oito anos retornou ele a esposa e três filhas. Posteriormente, entrou no grupo das Dozes tribos, esse grupo, segundo ele, existe no mundo inteiro e basicamente vivem como viviam os primeiros seguidores de Cristo. Eles se alimentam e vestem com o que produzem na comunidade.

Nessa comunidade tudo é de todos. Nesse mundo onde vivemos, esse é um conceito bastante difícil de assimilar, não acham? Mas é assim que eles se relacionam com os demais membros, compartilhando tudo e utilizando os recursos existentes para o bem coletivo. Cada pessoa dedica-se em zelar pelo grupo todo e não por seus interesses individuais. O principio fundamental desta conduta é que, não é necessário o individuo se preocupar em atender suas necessidades, uma vez que existe toda uma comunidade preocupada com ele.

Se o desprendimento dos bens materiais já é um conceito de dificílima assimilação, a idéia do individuo priorizar o bem do próximo, das pessoas que estão em seu entorno, é um principio ainda mais difícil de ser entendido e muito menos aplicado neste mundo em que vivemos atualmente.

Foi assim que acabei fazendo mais um amigo, seu nome é Anav. Um homem que conseguiu se desprender das questões materiais e do seu egoísmo, Um pessoa admirável. Algumas vezes ele me convidou para participar da celebração que ocorre no entardecer de toda sexta-feira, quando a comunidade agradece a Deus, pela semana que passou. Eles celebram com canções, teatrinho com as crianças, etc.

Anav tem filhos pequenos, e a educação das crianças vem de aulas de inglês, francês e matemática ministradas pelo pai e de português pela mãe. As crianças passam 24 horas por dia com Anav, o que torna uma tarefa bastante cansativa, mas segundo ele, é muito gratificante ver seus filhos conhecendo o mundo tendo ele como guia.

Já faz um bom tempo que não o vejo e apesar disso, trago vivo essas experiências que ele me passou. Afinal, os contrastes são muito importante para a definição de uma imagem.

O “professor” descobriu o Christalino

Aparentemente surpreso e curioso, apresenta-se no canteiro de obra do Christalino, uma pessoa que se dizia velejador e que tinha um veleiro, Fast 23 pés chamado Musashi. Não foi difícil torna-me amigo deste entusiasta da vela no Paraná. O Denílson é um cara da informática, muito organizado, cuidadoso e responsável. Comprou seu veleiro em 2001 e desde então, dedicou seu tempo vago no aprendizado náutico.

Em 2005, ele comprou um Brasília 32, e o batizou de Zen. Eu fui para Angra ajudá-lo a trazer o veleiro, aliás, essa história também merece ser contada em outra oportunidade. No ano seguinte Denílson constituiu uma empresa de charters e cursos de vela chamada: Vela & Aventura. Através dela, dezenas de novos velejadores foram formados, e outras dezenas, tiveram contato com a náutica e com a natureza marinha nestes últimos anos. É por isso que alguns amigos da vela os chamam de “professor”.

O Denílson é mais uma daquelas “figuras” tatuadas na história da construção do Christalino. Desde que nos conhecemos eu ganhei mais um torcedor, colaborador e incentivador. Eu ganhei mais um amigo e o Christalino mais um “padrinho”.

Vagner e Denilson no Zen

Acercando El mundo com o Eneko Etxebarrieta.

Bem, o Eneko é uma dessas pessoas raras, que resolve fazer algo diferente, vai lá e faz. São inúmeros os adjetivos que provavelmente já usaram para definir o Eneko, determinado, irresponsável, aventureiro, louco, enfim. O fato é que ele foi atrás de seu sonho e o realizou.

Um dia, meu amigo Álvaro me avisou que iria levar uma pessoa para ver o veleiro, e que ele tinha chegado a Curitiba de bicicleta. Tudo bem, falei, o veleiro parece que atrai pessoas estranhas mesmo… Só não sabia que o sujeito tinha feito quase 40.000 km de bicicleta!?! Ou seja, tinha dado a volta ao mundo de bicicleta! Saiu da Espanha para pedalar por um mês e não parou mais. Foi fazendo amigos por onde passava e através de seu site: “www.acercandoelmundo.com” foi fazendo amigos por onde ainda ia passar.

Com sua bicicleta e seus equipamentos de camping foi conhecendo o mundo, devagar e com detalhes. Nem precisa dizer que as histórias não tinham fim, e a conversa seguiu noite adentro. Foi a primeira vez que percebi que existem algumas “tribos” aparentemente distintas, que guardam pontos em comum. Como é o caso das “tribos” dos ciclistas e motociclistas em relação a nós velejadores. O que impulsiona esses grupos é a sensação de liberdade, o conceito do livre arbítrio e a vontade de conhecer lugares e pessoas diferentes.

Dizem que velejar não é para preguiçosos. Mas, quando imaginei a rotina do Eneko, pedalar durante o dia e a noite montar sua barraca e, no dia seguinte fazer a mesma coisa, confesso que fiquei feliz com a rotina em um veleiro. Por mais trabalho que se tenha a bordo, o vento faz a parte mais cansativa e quando escurece, nossa casa já está montada para nos abrigar.

Acredito que meu amigo Álvaro serviu também de cupido pois, foi em Curitiba que Eneko conheceu a Elza Miyuki Okabe, uma engenheira que decidiu tirar férias de um mês e ir pedalar com Eneko até São Paulo. Ao voltar, ela saiu da empresa que trabalhava e os dois começaram a planejar outra volta ao mundo com uma bicicleta de dois lugares. Bem, a historia do Eneko é longa e pode ser conhecida através de seu site www.acercandoelmundo.com .

Tive a oportunidade de encontrá-los outra vez quando eles passaram por Curitiba em sua segunda volta. O Christalino já se encontrava em Paranaguá, e eles fizeram questão de vir fazer-me uma visita e uma matéria que colocaram em seu site.

Atualmente o casal está morando na Espanha. A família aumentou, primeiro com a chegada de Akira que já tem dois anos, e recentemente com a chegada de Kenta. Eneko e Miyuki vão ter bastante trabalho agora e irão precisar de mais bicicletas! Desejo muita felicidade e sucesso para essa família de duas rodas!

Beatriz, Vagner, Eneko e Miyuke

 

Dois Anjos visitam Paranaguá

Na época que o Christalino estava dentro de um galpão, na marina Oceania em Paranaguá, apareceu certo dia um homem que me perguntou : “Do you speak english ?” Eu respondi que sim, mas que meu inglês era muito ruim. Foi assim que comecei a conhecer o Jürg, mais precisamente: Von Jürg Andermatt e sua esposa Ali.

Ele suíço, trabalhou no inicio da sua vida profissional como laboratorista em uma multinacional. Foi instrutor de esqui e posteriormente fotógrafo,saindo pelo mundo em busca das melhores imagens. Hoje ele tem em sua bagagem, várias exposições e inúmeros trabalhos publicados.

Ela alemã, o braço direito (e as vezes o esquerdo também) do Jürg. Uma mulher versada e abnegada dos valores materiais. Conheceu o Jürg quando foi para a Suíça e resolveu aprender a esquiar. Desde então, esse casal não mais se separou. O casal já viajou muito por esse mundo, de carro, de avião, e agora pelo mar.

Ele chegaram a Paranaguá em seu veleiro, um catamaran de 50 pés chamado Sposmoker. O veleiro é todo de madeira laminado com epóxi, inclusive seu mastro, e já suportou muitas aventuras. Uma delas foi passar uma temporada em meio à neve em Sptisbergen,uma ilha pertencente a Noruega.

Eles vivem a bordo já há alguns anos e escolheram Paranaguá para fazer uma reforma em seu veleiro. Basicamente, ele precisava de uma pintura completa e para isso foi necessário tirá-lo da água. No total, eles ficaram em Paranaguá uns dez meses. E como foram intensos esses meses, divididos entre muito trabalho no Christalino, longos jantares acompanhado com vinho e alguns passeios.

O Jürg é um simpatizante do principio: Navalha de Occan, atribuído ao frade Willian de Ockham (século xiv). A navalha de Occam é antecessora do chamado princípio “KISS”, “Keep It Simple, Stupid” ou em português “mantenha isso simples, burro”, uma vulgarização da máxima de Albert Einstein de que “tudo deve ser feito da forma mais simples possível, mas não mais simples que isso“.  Esse conceito foi aplicado no Sposmoker. Ele não possue nenhuma bomba elétrica de porão, nem sistema de pressurização, aquecimento  ou tanques de água doce. A motorização fica por conta de dois motores de popa que podem ser abaixados ou erguidos na face interna das “bananas”.

O arranjo interno do Sposmoker, também é bastante diferente dos demais catamarans de 50 pés. Na banana de bombordo está a cozinha e o banheiro, na banana de boreste fica a oficina do Jürg, onde ele guarda suas ferramentas e o paramotor. Entre as bananas, fica a mesa de jantar e ao lado, a cama do casal. Em resumo, é um 50 pés para duas pessoas.

Aos poucos, convivendo com o Jürg, fui percebendo que eu construí o Christalino sob  a ótica americana. Cheio de ”sistemas”,sofisticações que buscam propiciar mais conforto mas, que traz como consequência maior custo, maior consumo de energia, maior peso e suceptividade de falhas. A literatura americana sobre construção e manutenção de embarcações é abundante, e foi natural eu me guiar por ela. Mas normalmente os veleiros que estão dando volta ao mundo costumam ter apenas os disposittivos  essenciais para a segurança da embarcação.

Apesar do pouco tempo de convivência, eu pude aprender muito com o Jürg e a Ali. Para mim, eles foram como uma espécie de anjo da guarda, que vieram para me orientar.  Foram inúmeros os presentes que esse querido casal me deixou, entre eles: Um dos belos  trabalho do Jürg, a primeira ancora do Christalino, e um DvD repleto de informações importantes para um cruzeirista. Ou seja, mesmo muito tempo depois que eles foram embora, eu ainda aprendo com os diversos artigos e softwares que eles me deixaram.

Ao sair de Paranaguá, eles foram para o sul, e passaram um bom tempo,  experimentando os vinhos argentinos e uruguaios nos canais em torno do Rio do Plata. Em seguida, atravessaram o Canal de Magalhaes, e ancoraram no Chile. Lá eles compraram um furgão velho e começaram um viagem por terra, para melhor conhecer esse país.

Eu brincava com eles que, pelo tempo que eles passam juntos, já deviam estar comemorando a sua segunda bodas de ouro. E espero que continuem assim, viajando por mais duas bodas de ouro, e que um dia eu possa ter o prazer de encontra-los novamente em alguma enseada.

 

Dia: 26/03/2011 - arquivado em: Amigos, , ,